domingo, 19 de julho de 2015

Teu voo

Depois do último suspiro
Voaste alto, muito alto
Para além da dor

Para além do obstáculo
De um corpo cansado e frágil
                                               E por fim 
                                        - Frio

Foste naquelas asas grandes
Que um anjo mais amigo te ofertou

Tu que sempre sonhaste com o ar rarefeito
Sempre admiraste o voar sereno da águia
E aero-
Planos

Enfim teu voo sóbrio
Sem o cronômetro
Enfim liberto da terra
Das cicatrizes
E do tempo.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Começar

Ainda falta muito
Para as serpentes
Se envolverem no teu corpo

Muito
Para o jaguar sanguíneo
Direcionar teus rifles sem precisão

Muito muito
Para a flor carnívora
Mastigar teus dentes

Falta muito amigo
Para o demônio gastar tuas rótulas
E espinha dorsal

Muito
Para as trepadeiras 
Se enrolarem no teu verso
                                             Mole, viscoso
Nos cueiros da adolescência

Ainda falta
Aprender com as pedras
E com os gritos
De selvagens que nunca ouvistes falar
Assimilar
A aspereza das canas de açúcar

Ainda falta jogar
As podres gramáticas
No olho do cu do deserto

Ainda falta
Tu te tornares
Tímido e simples
Como um analfabeto


E assim começar.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ainda Virás

Ainda virás
Do olho das enchentes
Trazer o caule rachado de uma promessa

Ainda virás
Com o sorriso trincado
Trazer um hálito de culpa e pele de escusas

Espero que venhas
Para eu poder te olhar
Como alguém que olha
Um sapo morto ressecado
À beira duma cloaca

Ainda - eu sei
Virás trazendo restos de madeira
E fragmentos do azul vazio das tuas veias

Espero que tu venhas
Para que eu possa te ofertar
Minha hostilidade tímida
Meus lábios de lodo

Minha inocência de pedra
Que não entende de pássaros
E cartas de suicídio.




terça-feira, 30 de junho de 2015

São Francisco

Gatos sentados nos monumentos  
Sem darem conta do significado do lugar
Sem darem conta do rastro de lágrima diário...

Adentrando o labirinto de tijolo e mármore
Observei as incontáveis lápides
Atentando em alguns nomes obscuros e datas.
Pensei em todos que ali descansam:
Em algum momento da vida, corriam
Faziam planos  ficavam nervosos,
E almoçavam rápido para não perder a hora

Hoje estão livres
Hoje não precisam pagar contas
Dispensados de trabalhos embrutecedores
E sem finalidade
De entrar em filas.
De extrair dentes.
Fazer exames preventivos.
Ir a festas pelo bem da diplomacia.
De tomar remédios para insônia.
De ir ao psicólogo.
De contrair dívidas e fungos.
E também se livraram do inconveniente de ir a velórios 

Alguns, por momentos em que não se sentiam vazios,
Puderam ver arrebóis, apreciaram o gosto do café,
Sentiram a melodia de algumas canções
E o riso de uma criança.

Estão todos descansando porque  
Nem os deuses querem a imortalidade.
Chegas uma hora que cansa isso tudo.
Bastam alguns momentos bonitos
No mais é isso, tudo está certo
Um dia eu estarei, também 
Nas pequenas caixas de cimento
Descansando
Ou simplesmente ausente

Outros estarão loucos, comprando a prazo,
Fazendo empréstimos para trocar de carro,
Inquietos 
Com insônia

E indo a cartomantes.

domingo, 28 de junho de 2015

Poema

que nossa investida não seja vã
que nossa luta não seja abafada
pelo ruído de serras cortando aço
               e o estrídulo de concreto
                                         aniquilado

que exista um espaço
mesmo exíguo
para podermos respirar
e nos apropriar de símbolos ocultados
entre as pedras do nosso desatino

que nossa voz não seja um balbuciar
numa jaula de bramidos turvos

e o gesto físico
o arrojo - a palavra além da folha
permaneçam palpáveis
quando tudo derruir

por que no fim
ainda haverá música.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Quando Abriram Meu Coração

Quando abriram meu coração
Ele estava encharcado de vinho
E saudades

Quando abriram meu guarda-roupa
Tão só velhas roupas
Aroma de tabaco
E mofo

Alguns dos meus livros
Ficaram com Helena
Outros com Vanessa
O resto
Foi doado para a biblioteca da escola onde estudei no primário

Quando abriram minha gaveta d'inutensílios
Estava lá – meu bloco de poemas

E encontraram, na cabeceira da minha cama,
O caderno de versos do meu pai
Alguém, que ignoro,
Os guardou - Juntos

O tempo havia nos unido, novamente.
O tempo - que escreve

Com a caligrafia do olvido.

Eternidade

Inda é possível encontrar
Um esboço
De eternidade
Nesse porão que é a memória?
Ou no entrave desses velhos
Prédios reformados?

Há resquício
Do eterno
Nos solavancos
Desse mal intentado
Pedido de ilusão?

(Rilke e a certeza de seus anjos
Eliot e a certeza de seu deus...)

Os pergaminhos turvam os olhos
Olhos que
Já viram tanta dor
E hão de ver mais
E mais
Dor

Não seria mais fácil vir
A noite, simplesmente?

Não
A noite não quer o sono
A noite inquieta o louco
E seus planos de carne e osso
Mendicância e fístulas

A noite rejeita o sonífero
A noite esfrega teu rosto maduro
E virgem
Nas pedras deste mistério

Branco resto – futuro pó:
Nas migalhas noctívagas
Terás o ríspido gozo
Da escuridão

Não verás nada
E o destino é a
Bruta inquietação
De uma eterna pergunta
Que viverá mais do que tu