quinta-feira, 31 de julho de 2014

Enquanto

enquanto a justiça não vem
enquanto a verdade não se pronuncia
sobre a face trêmula do medo -

ainda há este abraço
como barcos voltando...

o pão correndo juros
é o templo que habitamos
e nos sustentamos

o trabalho ainda é o que temos
                             sempre há de ser
o ímpeto de um primeiro passo
e as mãos nunca estarão
suficientemente calejadas

a vitória permanece tímida
na margem do tempo-invenção
eclipse do sono
anti-sonho que não sonhamos
no fim
ainda estamos vivos

enquanto ela não vem
clarear o espaço curto
do quarto e do mundo
Ainda há este abraço
insolúvel

no fim
no fundo
estamos bem

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não visitei Paris

"conhece-te a ti mesmo"
disse o pensador
para outro camarada
que se vangloriava
de viagens inúmeras

no meu caso:
não fui a Roma
não visitei Paris
não senti o frio londrino

jamais saí deste sul
úmido e deselegante
mas tenho certeza:
para mim tanto faz

seria tudo igual
eu seria o mesmo de agora:

uma preguiça de dizer
alheamento
predisposição para esconderijos
refúgios para a expressividade
co'as sombras

as pessoas seriam as mesmas
comprando a prazo
coçando a bunda
deslumbradas 
masturbadas
pelas modernidades

as pessoas seriam as mesmas
com o mesmo talento
de desperdiçar a vida

(sim, e provavelmente
noutro país
haveria um McDonald’s)

conheço a mim mesmo
e deito quase feliz
na minha cama
no meu quarto
sozinho

Metamorfose

somos maleáveis
com louvável diplomacia
lábios sempre prontos para dizer sim

temos a leveza das folhas secas
guardadas num livro
delicadamente

anulamos nossos gestos
machucamos o que seria
uma forma independente de pensar
sacrificamos nosso corpo
em prol do contentamento do algoz

"pode ser"
"como preferir"
"tens toda razão"

oposição e situação
ambas nos manipulam
não temos sangue
nem bandeira
tão só
um riso magro
benevolente

a areia no rosto dos tantos chutes
que levamos
limpamos escondidos
e reprimimos a lágrima

fomos domesticados desde as primeiras surras
castrados
desde as primeiras aulas

assim, pouco a pouco
nos tornamos insetos
adquirimos certa curvatura nas costas
e trejeitos evasivos
mas por ora
quase imperceptível

chegará um dia, no entanto
olharemos no espelho
não seremos mais que baratas
repulsivas baratas

e a vida seguirá
para eles

quarta-feira, 23 de julho de 2014

apontamentos sobre a cidade natal

não há escritores no café
não há vida na livraria

tudo está tão novo
e tão velho

cidade na qual
perdi meus olhos
cidade natal onde perdi
minha fé

apesar de suas ostentações
ainda é a minúscula província
no sul do sul

gente obtusa crê
em sangue sobrenome
e cartão de crédito

prédios históricos
e uma biblioteca imensa sobre
prédios históricos

A riqueza é um passado
construído com ignomínia

Já o presente é irrisório
os doutores
legisladores
gestores
florescem sem discurso

o futuro é umidade
e um pássaro de lama
onde a liberdade?

a estética burguesa
romanceada
bajulada
onde o frio
como aparato
artístico?


cidade na qual
estou entranhado
como um tubérculo
cheio de raízes

uma ilha
de asfalto e concreto
sem chance
de comunicação


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sobre uma fotografia de Kevin Carter

Ave de negras penas
espreita o menino
 - escultura de deserto e osso -
     
[qual o dono do cinzel
?
chamem por ele...]

sol / vento estéril
a respiração presa
dedo sujo de nicotina
dispara o obturador

o fotógrafo que colheu
o instante e o eternizou
deu-se conta:
deus não interferia

de que adianta o Pulitzer?
o que é a fama?
andrajo cobrindo a alma
  de urubu?

Ave de negras penas
e um menino de pedra
como tirar uma imagem
das retinas
?

deu-se conta:
deus não interferia
sentiu-se culpado
por não interferir
     também
 
preferiu morrer




terça-feira, 15 de julho de 2014

poema II

de volta ao parco lápis
o computador
                      fabricado para não durar
                                                 
quebrou

duramos pouco - também
um pouco mais, talvez
                                     que o computador
                       e o lápis

de volta à folha branca
e a caligrafia sanguínea
e a gaveta de madeira

duramos pouco realmente
um tanto mais
                       que o grafite

e escrever
                
é  vencer
               o lápis, o papel
                                       o computador
nós mesmos.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

eu sonhei um pouco mais


eu sonhei um pouco mais para isso tudo,
para minha vida, para nós.

“é bom que tenhas parado de sonhar, teu café esfria
já são 7 horas”

porque dois pães se não tenho fome?
há quem tenha fome e sede
olho culpado para os pães
a essa hora sinto náusea

onde coloquei minhas chaves?
os dias burocraticamente iguais...
e se não forem iguais, são piores
pois ainda com a mesmice
é bom, ao menos, estar saudável
os fins de semana iguais, também burocráticos
a vazão burocrática...
talvez a cópula dos peixes seja mais pessoal
é bom, ao menos, estar saudável

(pensar fazendo a barba:
nos besouros mecânicos – nas molas dos relógios
nas bactérias da esponja velha na ferrugem no barbeador
no coador de café nas tartarugas que vivem cem anos
porque não fumam no cara que amputou a perna
por causa da diabetes)

“7 horas e vais perder novamente o ônibus
7 horas e vais perder
7 horas
definitivamente vais perder...
perder, perder, perder”

talvez seja bom perder o ônibus, a hora, o emprego
perder a casa, os cabelos, os dentes postiços, o despertador
o casamento, a máquina de lavar, a bicicleta ergométrica
o velocípede, a torneira rangente, a pastilha de menta
o telefone, o trevo de quatro folhas

“deixa de ser patético, homem
faz teu trabalho humildemente
não reclama, aceita
as ruas estão apinhadas de miseráveis
eles e eles também não são livres
a liberdade acaba dentro do útero
a loba comeu teus neurônios
estás apenas ossos
ossos patéticos”

ontem alguém  disse que já pensou
em tomar 30 comprimidos para dormir
e sorriu
eu disse que também tinha pensado
em fazer o mesmo
nós dois rimos como se estivéssemos
falando de coisas triviais

“à noite vamos no shopping”

sim vamos no shopping, que boa notícia
vamos no shopping
é uma maravilha ir no shopping
eu fico de pau duro só de pensar em ir no shopping
que vida bem aproveitada ir no shopping

sim, vamos...

muitos anos e esse portão faz exatamente o mesmo barulho
quando saio
as coisas todas são previsíveis
mas é bom, ao menos, estar saudável
eu sonhei um pouco mais para isso tudo,
para minha vida, para nós.


sábado, 5 de julho de 2014

bandeiras


vende na avenida
bandeiras auriverdes
flâmulas de polietileno
com lucro estimado de
quarenta centavos a
unidade

aos sessenta e cinco anos está
entre os que não deram certo os
que perderam o bonde e
vivem uma existência minúscula

aos sessenta e cinco os
pássaros cagam na sua cabeça a
vida já cagou muito na sua cabeça

no entanto
perdeu o hediondo desespero e a
lesma existencial da autocomiseração

vende, animado,
suas bandeiras descartáveis
sorri para as crianças
velhos
e para os cães e gatos de rua

apto a qualquer tempo - intempérie
mais forte e seguro que o poeta pretendido
funcionário público misantropo
que não conseguiu publicar seu livro

mais injetado de vontade de
viver que o ricaço
cujas preocupações escabeladas
com suas empresas e status social e
bagos de ouro
lhe deram um caso de depressão
e hipocondria

vende na avenida
bandeiras auriverdes

a vida venha do jeito que vier
ele está preparado
(um dia estaremos)