quinta-feira, 29 de maio de 2014

Poema

Duas datas inevitáveis:
E entre elas
A folha pálida
Para registrarmos alguns feitos
E- se possível -
Deixarmos nosso nome
Além da pedra derradeira

Aqueles que inventam
Uma vida para depois
Perdem a força
E o impulso de fazer luz
Sob cada instante

Se a vida possui encanto
É pela investida da morte
Que nos faz
na árvore da sabedoria
Buscar
Um pomo
Um poema
Quase novo

Nos faz
Mudar um pouco
O mundo
Com pequenos gestos
Mesmo que
- Quase certo -
Condenados
Ao olvido.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Sem Título

Confiscaram os milagres
A arca de esplendores

Em cofres de aço
Perecem as rosas

A sensação de eternidade:
Devolvida aos vendilhões

Asas partidas de anjos
Em vidros de álcool etílico

Perfurada a infância dos dias
Com vermelhas baionetas

E mesmo assim
cinzelar um sorriso
Na hora do cerco:

 - Nem todos os sortilégios

Foram silenciados - 

O outro de sempre



“Bioy Casares lembrou então que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número dos homens”
Jorge Luis Borges


O espelho é abominável
Me multiplica para me espreitar

Outrora tentei partir a imagem
Era vidro e aço apenas

Ambicionei matá-lo
De fome e sede
Ele se expandiu

Eu que independe
Do gesto
E do corpo

O espelho é o juiz:
Me julga  me dilui  
E me condena

Se sobrepõe
Ao ser inerme
Sem imagem

É ele sempre, no fim
A pôr
Um ponto final
Em mim.


o forasteiro


A ave era antropomorfa como um anjo
E solitária como qualquer poeta.
(Jorge de Lima)
chegou à pequena cidade
quando ainda era tempo nublado cor de chumbo
vestia uma roupa que não se sabia marrom
ou simplesmente encardida

o forasteiro tinha a face deformada
órbitas desconjuntadas
e seus olhos eram caroços tímidos de azeitona
o rosto torto
queixo brusco
e sua boca um rascunho de lamento

vagou dois dias buscando emprego
os homens lhe olhavam de soslaio
não o queriam nem para carregar dejetos dos porcos

as crianças o temiam
choravam ao encará-lo
os adolescentes escarneciam de sua aparência
no entanto ele mantinha o mesmo cenho rude
(provavelmente não conseguia
dar expressão à face)

dormiu a noite na praça
na manhã seguinte um pároco
deu-lhe comida, ofertou banho e roupas limpas

o forasteiro nada falava, mas respondeu
com dois olhos úmidos...

voltou para a pracinha e de suas mãos nasceu
uma flauta transversal em madeira
colocou o bocal em seus lábios de dor

e todos estranharam aquela melodia
bonita e melancólica que ganhava o ar
e invadia lares

espantaram-se os pedestres
ao ver que era o mendigo disforme
quem exalava através da flauta
aqueles doces lamentos sem nenhuma partitura

a cada momento uma canção mais linda que a outra

“como uma criatura tão feia
pode desenhar tão lindamente
com sons”
disse o vendedor  ambulante

“deve ser coisa do diabo”
disse o oleiro

uma senhorinha encurvada disse que
era coisa de deus...

ao fim da tarde parou de tocar

mas na manhã seguinte as melodias etéreas ressurgiram
pessoas lhe deixavam moedas
e presentes
ele agradecia baixando a cabeça respeitoso

as crianças que outrora lhe temiam
observavam admiradas
e queriam também ter uma flauta
e aprender a fazer poemas doridos com notas musicais

por seis dias ele adornou a pequena cidade com sua música

o sétimo dia amanheceu sem a sua flauta

mas na pequena cidade
já não era tempo nublado
e todos lembram até hoje
do forasteiro disforme
sua flauta

e as melodias lindas e misteriosas

permaneceram até hoje em seus corações.

domingo, 27 de abril de 2014

Homero


No mesmo sol
Que acariciou o rosto
De Homero
Está a poesia!

Na mesa de bar
No falar do povo
Nos adágios gastos
No ônibus lotado

No fervor místico
Na sanha do ateu
Na voz da criança
Na pedra tumular

Na madeira podre
No desgaste dos ossos
No vento de sempre
No eterno rouxinol

A poesia está em tudo
Mas não se lança fácil
Aos nossos braços
Sem artefato

É preciso também ser íntimo
Da madrugada e do tempo
E uma predisposição
À tez do silêncio

É preciso paciência
Nada esperar
Nenhuma recompensa
Além da própria lírica

A poesia é mais importante
Que o poeta.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Persona

como se mata o eu lírico?
como se salva o poeta
por sua vez
persona poética?

como se mata o personagem
a sufocar e obscurecer o criador
esse
também ficção?

como partir em pedaços a máscara
e não quebrar o rosto?

a voz que ressoa
como o corvo de Poe
terá realmente um fim?

vida & arte arraigadas
em que camada
está o fingir?

no sonho está a vida
que rege claridades
assoma a sala de estar

no sonho está a verdade
que irrompe
à pele nua

e perfaz a realidade...

que no livro
esteja o alívio
deixar as roupas
e o roteiro

no livro
vivo eu lírico
morta em vida
a persona

no livro
o grito
falaz ficção
que foi ser

em vida?
não importa a sombra
importa a máscara
partida
vazia
a lírica-vida
salva...

terça-feira, 1 de abril de 2014

Apolo - apontamento de um poema em progresso

... e finalmente o dia rebenta
das dobras úmidas do alvorecer
no ar o bocejo amargo
cidade mal dormida que desperta

o caminhão do lixo e o gritar desmesurado dos garis
levam a biografia descartada
a história de cada ser em seus detritos

expiação daqueles que não fecharam os olhos ainda
golpe desfechado nas cortinas transparentes
...claridade...
limbo violentado
folhas desfalecidas à cabeceira
escritas com dor e parcimônia...

rascunhos de uma vida lamuriada
de uma vida curvada às portas da agonia
o que paira como ressentimento & culpa
não cabe num hai-cai
ou no Mahabharata

os segundos de metal cravando:
suspiros de impaciência
o café quente demais não termina...
parece sem fim como noite de insônia

abrir a janela respirar fundo o ar da manhã
que invade o peito
golpe de espada
o cigarro para retardar o começo de tudo
pensamento plúmbeo

o eterno pensar em si pensar na vida e um sentido
o começo, recomeçar
um plano a mais: reelaborar o ser
sem dor ou autocomiseração
mais um plano para o mês que vem

água morna caindo no corpo
mortas células escorrendo no desvão
fios de cabelo
descendo ao Hades
ao encontro do enorme detrito humano
monstro que não para de crescer

mas o sol ainda é o poema
que se sobrepõe
o sol ainda é um deus
acariciando as lápides obscuras
e não obstante o homem
a turvar a vida com sua melancólica ilusão
ele brilha...