terça-feira, 25 de agosto de 2015

[Talvez eu já tenha lido]

Talvez eu já tenha lido a palavra-sentença
Ou verso-lampejo, sintagma de luz
Que é chave & porta de acesso
Para a compreensão

Talvez estivesse em Blake, Borges
Numa estrofe de Camões ou Dante
Em um personagem de Shakespeare
Ou no Dharmmapada

Talvez a sentença-chave
Eu a tenha ouvido do bêbado
Que desconstruía o macaco nu
Ou na voz do amigo simples
Ora intimo das nuvens
Que tocava gaita de ouvido

Escusado procurar em livros
Já lidos ou na memória...
Pode ser uma palavra apenas
Um som escondido
Na selva da distração

No fim eu terei de deixá-la
(Essa sentença verso palavra...)
Aflorar como algo meu
Num momento de epifania
Senti-la no duodeno

Para enfim descortinar o mundo
E morrer em paz.

[É apenas um idiota]

É apenas um idiota
Que atravanca o perfume e a paz da aurora
Pensam
Um tolo como Artaud morto
Segurando um de seus sapatos

Tem lesmas no olhar e é
Egoísta como a noite-chumbo
E o sono-tédio-sulfúrico
Moeda enferrujada
De país que jamais existiu

Apenas um idiota
Com uma resma de equívocos
Debaixo do braço
A caminhar curvado
Como um túmulo tímido

Esse idiota sou eu
Tentando domesticar
O corpo de um crocodilo
Machucando sem querer
O repouso das árvores

Que carroça rangente o trouxe ao mundo?
Em que estrebaria ficou escondido por tanto tempo?
E agora nos surge pondo lágrimas de óleo
Nas vitrines obsoletas
E ofertando rugas
E dizendo o já dito enterrado
Reciclando os mortos
Que jamais quisemos ouvir.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Eu

Aceito o escorpião rajado
A correr nas minhas veias
O gosto ferruginoso do álcool
E a blasfêmia da manhã

Aceito o mel da indiferença
O bombardeio de ossos
E os cacos de vidro
Que mastigo casualmente

Aceito o cavalo indócil
E abro o coração
Para o verme da lira e o vexame
Dos espelhos

Recebo o riso de escárnio
Como elogio
E semeio meu verbo
Nas grutas da maldição

Na sobrevida entre perigo
Ressaca e mofo – sorvo calmo
Com certa volúpia
O thinner
O  veneno das cobras
E o rugido dos lobos
Sem precisar dizer
Qualquer palavra de escusa. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Apontamento.

Depois de 36 anos já me acostumei 
Com meu jeito, com minha aparência
Com meu rosto no espelho

Mas de que forma o mundo me vê?
Será que vê meu rosto perdido entre
Milhões que também julgam serem vistos?

Muitas vezes parece ilusão
Ilusão essa imagem que vejo todo dia ao acordar

Um sonho obscuro que envelhece
Sonho marcado pelo tempo
No fundo do fundo
De algo que ignoramos
E nos ignora.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

acidente de trabalho

dos piores acidentes de trabalho
é o acidente vascular cerebral
segure firme, amigo
é o pão de cada dia

“mas não me sinto bem e
simplesmente dizem
que não gosto de trabalhar”
segure firme, irmão
daí depende sua moradia

acidente de trabalho é
essa lenta e fatal hemorragia
essa perda de vida e alegria

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

o sótão

mais uma vez adentro o sótão
não para contemplar
os estilhaços de vida
as sobras díspares
de brinquedos decepados
enfeites quebrados de natal

passo a tarde
nesse último e árduo
trabalho
de ver o passado enferrujado
pela última vez
limpando, descartando  tudo

não quero a volúpia
de objetos
cheios de memória
e rancor
é preciso limpar tudo
tirar o pó
e fazer uma clareira

não guardarei mais objetos de lágrimas
no sótão – ora limpo e claro
com sua claraboia translúcida
por onde entrará sempre
a luz do sol. 

domingo, 16 de agosto de 2015

Poema

Se tudo está escrito
E tem uma finalidade
Qualquer momento
Mais simples
Já foi planejado
E há de ser
Inevitavelmente.

E todo ímpeto,
Por mais insólito
Que move
E muda a direção dos dias
Em suma, está correto.

Somos donos do destino?
Guerreiros com seus gládios escudos
Tornaram-se heróis
Sem saber

E nós com nossas vidas tão símplices
Tão anônimas
É possível lutar contra
Ou a favor do escrito
Que rege nossos dias?

Nos resta lutar, tão só
O que tiver de vir é mistério
À beira da rocha
Silenciosa.