domingo, 26 de julho de 2015

Domingos

Parece que sinto
Aqueles domingos
Quando todos ainda
Não eram retratos
E lembranças

Parece que insistem
Aqueles domingos
Quando o tempo em que habitávamos
Era um lugar seguro
E confiável

Parece que soam
Aquelas vozes
Meu pai
Meus avós
E meu tio

Mas eu abro os olhos
Na escuridão e vejo:
Um vazio no corpo do destino
Um clarão de silêncio
Em mim

De olhos abertos
Tento me persuadir
A vida é assim:
Intercalar
O riso e a lágrima
A vida é assim:
Um rio de ausências
Inflexível incansável

Eu tento me persuadir
Preciso continuar
Preciso seguir
Mesmo que eu não saiba
Exatamente para onde.

sábado, 25 de julho de 2015

****

Eu te deixarei meus melhores versos
Pois meu desejo é a dissolução
No ápice das chuvas torrenciais

O amor é brutal – demais para mim
Pra sístole dum coração arcaico
Para a miséria dos meus pulmões

Eu te deixarei meus melhores versos
Pois preciso partir urgente
No aço – espelho das chuvas

Mais do que eu – os meus versos viverão
Hão de ser mais tênues que minha presença
Uma eterna presença silenciada 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Ausência

Faz tempo
Sinto falta de mim
Sinto saudades de mim
Cá estou - meu corpo
Meus sentidos
Boiando a esmo
Na praxe
De abrir os olhos
Proferir fonemas
Díspares e
Engasgar o grito

Não lembro
Onde quando
Me extraviei
Restou a secura
Essa casca de dor
Esse cadáver
Que carrego

Ora sou um enfeite
Andante
Que toma café
Vai pro trabalho
E depois dorme

E acorda
E toma café
Vai pro trabalho
Depois dorme

Meu casaco
Do dia a dia
Sabe o caminho
Que traço sem querer

Faz tempo
Sinto falta de mim
Sinto saudades de mim.

domingo, 19 de julho de 2015

Entardecer

Não se prendam por minha pessoa
Sigam – amigos – suas aventuras
De mar descobrimentos
Ouro continentes
E ilhas de amores

Sigam em busca da fortuna  
Heroico nome
Num escudo de bronze

Eu estarei bem
Sentado por tardes amenas
Tomando meu chimarrão
E anotando impressões
Do por do sol ou dos desenhos
Herméticos das nuvens

Sem cobrar nada da existência
Além de um lugar tranquilo
Em que eu possa me sentir
Seguro

Não estendo mais meu sonho
A países
Ou brasões

A palavra a tarde
O amargo
Meu refúgio

Teu voo

Depois do último suspiro
Voaste alto, muito alto
Para além da dor

Para além do obstáculo
De um corpo cansado e frágil
                                               E por fim 
                                        - Frio

Foste naquelas asas grandes
Que um anjo mais amigo te ofertou

Tu que sempre sonhaste com o ar rarefeito
Sempre admiraste o voar sereno da águia
E aero-
Planos

Enfim teu voo sóbrio
Sem o cronômetro
Enfim liberto da terra
Das cicatrizes
E do tempo.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Começar

Ainda falta muito
Para as serpentes
Se envolverem no teu corpo

Muito
Para o jaguar sanguíneo
Direcionar teus rifles sem precisão

Muito muito
Para a flor carnívora
Mastigar teus dentes

Falta muito amigo
Para o demônio gastar tuas rótulas
E espinha dorsal

Muito
Para as trepadeiras 
Se enrolarem no teu verso
                                             Mole, viscoso
Nos cueiros da adolescência

Ainda falta
Aprender com as pedras
E com os gritos
De selvagens que nunca ouvistes falar
Assimilar
A aspereza das canas de açúcar

Ainda falta jogar
As podres gramáticas
No olho do cu do deserto

Ainda falta
Tu te tornares
Tímido e simples
Como um analfabeto


E assim começar.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ainda Virás

Ainda virás
Do olho das enchentes
Trazer o caule rachado de uma promessa

Ainda virás
Com o sorriso trincado
Trazer um hálito de culpa e pele de escusas

Espero que venhas
Para eu poder te olhar
Como alguém que olha
Um sapo morto ressecado
À beira duma cloaca

Ainda - eu sei
Virás trazendo restos de madeira
E fragmentos do azul vazio das tuas veias

Espero que tu venhas
Para que eu possa te ofertar
Minha hostilidade tímida
Meus lábios de lodo

Minha inocência de pedra
Que não entende de pássaros
E cartas de suicídio.