quarta-feira, 27 de maio de 2015

Antologia

Ao compulsar uma breve antologia
De poetas norte-americanos
Sempre atentava em datas:
Nascimento e passamento...

Deus, todos mortos!

Deus, todos vivos
Porque a obra está em minhas mãos
E nada susterá o canto
De Elizabeth Bishop
Ou Wallace Stevens

Suas vozes intactas
Acompanhadas pelo homem
Do violão azul


Prometo o perdão

Prometo o perdão
Para este corpo
No torso do tempo

Prometo livre-arbítrio
Para o reflexo
Perplexo de si

Prometo suster o mantra
Meu rosto da lama

Dou-te liberdade
Pode ir
Pássaro escuro
Drama escuso
Do íntimo de meus rins

Prometo não sufocar
O rouco som da minha voz

A prece que prometi, eis:
Concreto
Diamante
Plutônio

Prometo não pensar
Ir-me, só, neste rio...
Não pensar no pó
Que me espera

Prometo o riso
Ainda que lasso
Nessa vida resumida
A promessas




domingo, 24 de maio de 2015

Primeira Pessoa


Car je est un autre.

Arthur Rimbaud

Penso então
Na retidão escorregadia:
Primeira pessoa do singular

No confim desse pronome
Estão todos os nomes
Presentes ausentes futuros

Todos os lagos e o lodo
Toda pungência de uma rosa
E uma ferida acesa

Não se lava o pronome
Não se faz cirurgia no pronome
Ainda que um prenome
Brote malicioso
E febril

O eu
É um espelho
Que reflete a humanidade

O eu é um outro
És tu

Somos todos

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Sem título

Um escaravelho no teu coração
Uma asa escura de morcego
Inflige teu olhar

Teus braços roxos
Das mordidas de lacraus
A garganta aberta
Pelas cruas lâminas
Da ciência

Imóvel com um rochedo
E os abutres vestidos de branco
Investigam teus rins

Não sei se ainda estás
Ou dormes profundamente

Eu tento encontrar antídoto
Para minhas lágrimas e dor

Olho para o céu
É somente o céu

Cinzento

terça-feira, 28 de abril de 2015

Jogo de Cartas

Meu avô continua a embaralhar as cartas
A servir aguardente aos outros jogadores
Ele não quer que a partida termine
Não quer que a noite termine
Não quer que a aguardente termine

E almeja a eterna lua moribunda
e põe num canto o relógio de pulso
e a vida postiça que arde qual vela murcha

As cartas têm cheiro de cigarro
E meu avô esquece o tempo
Está eternamente ali – jogando
Com os parceiros prestes
Em apostas e gracejos

Um dia, finalmente, hei de participar do jogo
Numa noite serei acolhido pelos insones jogadores
Noite que não prevê

Um amanhecer

Farewell



Em quantas línguas é possível dizer adeus?
E quanto adeus ficou por dizer
por se ignorar que era a derradeira
chance de dizê-lo?

Em quantos poemas?
Em quantos dias de chuva?
Sob quanta luminosidade de velas?

Haverá, afinal, dentro desse corpo-mistério
que é memória, morte
alguma razão para o adeus?
Haverá, além de fonemas
“deus” nesta palavra

tão simples dura e incerta?




segunda-feira, 27 de abril de 2015

A Outra Voz


Arranca do rosto esta máscara de animal doméstico
Adaptável às contingências
Parte em mil pedaços este sorriso aplainador de arestas

Grita rudemente contra esse cosmopolitismo contratual
E familiar
Rebela-te contra o sangue contra o medo paralisante
Das escadas de teu pesadelo

Crava tua espada ríspida na noite
Despe-te do desconforto de gestos ancestrais
Revoga teu destino inventa teu destino escreve
Uma batalha contra o tempo e a morte
E exaurido
Morre honestamente em campo sagrado

E deixa que teu dia amanheça