quarta-feira, 29 de julho de 2015

Luta desarmada

Canto a liberdade das noites inauditas
Quando realmente posso desaguar
De forma autêntica e sem sobressaltos

Canto por me aceitar transitório
E com isso ter mais ímpeto de suster a voz
Enquanto há voz e canto

Canto pelo insulamento e a comunhão
Que tento entrelaçar no meu traçado

Canto a renúncia pacífica
Dos bens mundanos
E a confiança na poesia

Canto a uva antes perecível
Até se tornar vinho e ser envasada
Até estimular minha verve
E fluir na tinta da minha caligrafia

Canto que é mais que prece louvação
É ofício luta desarmada
Sonho
Devaneio
Num mundo embrutecido

Sou eu explodindo na boca das ruas
Desejo-me o porta-voz
Das tardes e das noites

Meu templo imperfeito –
Essas palavras poucas que aprendi
E combino com o melhor de mim
E com o pior do Hades

Um dia serão ouvidas
Por aqueles que estão dormindo
Ou ainda não nasceram.

terça-feira, 28 de julho de 2015

primeiro poema das velhas novidades

Alguns fugiram num foguete
E nos mandam e-mails perguntando
Como vão as coisas por aqui

Nós respondemos:
Ah, nada mudou
A vida continua
Sendo uma bagatela
Mal vivida

Continuamos sofrendo por amor
Comprando a prestação
E gastando o que não temos

Continuamos bebendo
Fumando
Ouvindo
In The Wee Small hours
Do tio Frank no Juke
Até a taberna fechar

(Na última noite
Varreram as cinzas de Murphy
Junto com resto de cerveja &
Cuspe)

Continuamos aqui
Insistindo
Tentando escrever
Um poema que preste
Enquanto Mrs. Angel
É traduzida em 50 países.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Os Insones

O futuro sedutor das revistas científicas
É uma inevitável obsolescência;
O presente automático de ontens exaustos
Foi projetado em produtos nascidos inúteis.

O que se mantém incólume
É a perseverança das nuvens,
A força marítima indócil & o ímpeto
Dos ventos e das chuvas.

O que se preserva é a inquietação
Que não permite descansar os insones. 
Eles - que batem nas pedras do cotidiano
Com força e delicadeza precisa
E engendram a vida Trans-Figurada
Que nos ajuda a respirar neste palco.

domingo, 26 de julho de 2015

Domingos

Parece que sinto
Aqueles domingos
Quando todos ainda
Não eram retratos
E lembranças

Parece que insistem
Aqueles domingos
Quando o tempo em que habitávamos
Era um lugar seguro
E confiável

Parece que soam
Aquelas vozes
Meu pai
Meus avós
E meu tio

Mas eu abro os olhos
Na escuridão e vejo:
Um vazio no corpo do destino
Um clarão de silêncio
Em mim

De olhos abertos
Tento me persuadir
A vida é assim:
Intercalar
O riso e a lágrima
A vida é assim:
Um rio de ausências
Inflexível incansável

Eu tento me persuadir
Preciso continuar
Preciso seguir
Mesmo que eu não saiba
Exatamente para onde.

sábado, 25 de julho de 2015

****

Eu te deixarei meus melhores versos
Pois meu desejo é a dissolução
No ápice das chuvas torrenciais

O amor é brutal – demais para mim
Pra sístole dum coração arcaico
Para a miséria dos meus pulmões

Eu te deixarei meus melhores versos
Pois preciso partir urgente
No aço – espelho das chuvas

Mais do que eu – os meus versos viverão
Hão de ser mais tênues que minha presença
Uma eterna presença silenciada 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Ausência

Faz tempo
Sinto falta de mim
Sinto saudades de mim
Cá estou - meu corpo
Meus sentidos
Boiando a esmo
Na praxe
De abrir os olhos
Proferir fonemas
Díspares e
Engasgar o grito

Não lembro
Onde quando
Me extraviei
Restou a secura
Essa casca de dor
Esse cadáver
Que carrego

Ora sou um enfeite
Andante
Que toma café
Vai pro trabalho
E depois dorme

E acorda
E toma café
Vai pro trabalho
Depois dorme

Meu casaco
Do dia a dia
Sabe o caminho
Que traço sem querer

Faz tempo
Sinto falta de mim
Sinto saudades de mim.

domingo, 19 de julho de 2015

Entardecer

Não se prendam por minha pessoa
Sigam – amigos – suas aventuras
De mar descobrimentos
Ouro continentes
E ilhas de amores

Sigam em busca da fortuna  
Heroico nome
Num escudo de bronze

Eu estarei bem
Sentado por tardes amenas
Tomando meu chimarrão
E anotando impressões
Do por do sol ou dos desenhos
Herméticos das nuvens

Sem cobrar nada da existência
Além de um lugar tranquilo
Em que eu possa me sentir
Seguro

Não estendo mais meu sonho
A países
Ou brasões

A palavra a tarde
O amargo
Meu refúgio